Obscure RockMedia Center · 60s & 70s
Capa do álbum Assim Assado do grupo Assim Assado, lançado em 1974
Vinyl LP, AlbumÁlbum Único

Assim AssadoAssim Assado · 1974

Único álbum lançado pelo projeto carioca Assim Assado. Liderado por Miguel de Deus (ex-Os Brazões), o disco de 1974 funde a teatralidade andrógina pós-Secos & Molhados com uma arrojada mistura de psicodelia, progressivo, samba-rock e funk, constituindo o elo perdido para a black music brasileira.

Ano
1974
Gravadora
Companhia Industrial de Discos (CID)
Faixas
10 faixas
Duração
33:30

Faixas do álbum (10)

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Side A

Side B

Contexto histórico

Em 1974, a cena musical brasileira vivia o ápice da comoção estética provocada pelos Secos & Molhados, cuja androginia, maquiagens de palco e figurinos teatrais abriram espaço para que o rock nacional dialogasse abertamente com a provocação e a performance. No Rio de Janeiro, o cantor, guitarrista e compositor Miguel de Deus — que havia sido integrante e força motriz da lendária banda psicodélica tropicalista Os Brazões (cujo álbum de 1969 é clássico reverenciado) — aproveitou o momento cultural para batizar e lançar seu novo projeto: Assim Assado. Apresentando-se com visual andrógino e cênico na capa, o disco foi lançado pela gravadora independente Companhia Industrial de Discos (CID, catálogo CID 8003; com resenhas e circulação na imprensa entre 1974 e o primeiro semestre de 1975). Todavia, no interior dos sulcos de vinil, Miguel de Deus não se limitou a seguir modismos: o LP é uma vigorosa síntese musical que combinou a agressividade das guitarras psicodélicas e texturas do rock progressivo com a cadência sincopada do samba-rock e a pulsação irresistível do soul e do funk.

Destaques musicais

  • Viva Crioula — Abertura pulsante que une guitarra psicodélica, levada de samba-soul e o vocal personalíssimo de Miguel de Deus.
  • Na Boca da Estrada — Canção envolvente e bem construída com arranjo de sopros, guitarras ácidas e ritmo dançante.
  • Sombras — Momento de densidade psicodélica com arranjo misterioso e solos inspirados de guitarra.
  • Amarelo Cinza — Incursão progressiva e atmosférica com harmonias sofisticadas e texturas cósmicas.
  • Rock Blue — Fusão ríspida de blues-rock com síncope rítmica brasileira e guitarra elétrica cortante.
  • Lunática Marciana — Encerramento lisérgico e espacial com poesia surrealista e liberdade instrumental.

Evolução sonora

A tessitura musical de "Assim Assado" é um dos exemplos mais fascinantes da hibridização do rock brasileiro dos anos 1970. A abertura com "Viva Crioula" estabelece de imediato a identidade da obra: guitarras ácidas dividindo protagonismo com linhas sincopadas de baixo e uma malandragem rítmica tipicamente brasileira. Em "Na Boca da Estrada", a banda equilibra arranjos dinâmicos de metais e guitarras suingadas com melodia acessível e envolvente. "Sombras" mergulha em uma densidade psicodélica envolta em mistério lírico e solos elétricos inspirados. No Lado B, faixas como "Pedaços" e "Sol, Sal, Sol Tropical" aprofundam a inflexão funk-soul com síncopes cortantes, enquanto "Amarelo Cinza" flerta com o refinamento tímbrico e as modulações do rock progressivo. O encerramento com "Lunática Marciana" reafirma a inventividade da banda em uma atmosfera lisérgica e surrealista que amarra com maestria as pontas soltas entre o rock e o groove.

Por que este álbum importa

Na historiografia da música brasileira, "Assim Assado" é o documento crucial que articula a linhagem evolutiva de Miguel de Deus e a transição da psicodelia para o movimento Black Rio: Os Brazões (1969) → Assim Assado (1974) → Black Soul Brothers (1977). O álbum demonstra como a psicodelia tropicalista do final dos anos 1960 foi progressivamente absorvida pela linguagem do samba-soul, do funk e da música negra brasileira dos anos 1970. Cronologicamente, o LP dialoga com as obras contemporâneas do rock e da psicodelia carioca e paulista: A Bolha (1973) → Perfume Azul do Sol (1974) → Moto Perpétuo (1974) → Assim Assado (1974) → A Barca do Sol (1974) → O Peso (1975). Por ter sido lançado por um selo independente com distribuição limitada, o LP original da CID converteu-se em um cultuado santo graal para pesquisadores e DJs de todo o mundo, celebrado como uma pérola rara e visionária do groove psicodélico nacional.