Obscure RockMedia Center · 60s & 70s
Capa do álbum Bango do grupo Bango, lançado em 1970
Vinyl LP, Album

BangoBango · 1970

Único álbum lançado sob o pseudônimo Bango pela mesma formação de Os Canibais. Gravado em 1969 e lançado entre 1970 e 1971 pela Musidisc, é uma obra-prima seminal da transição do beat para o hard rock psicodélico brasileiro, repleto de guitarras fuzz pesadas, órgão Hammond B3 e influências de Mutantes e proto-heavy.

Ano
1970
Gravadora
Musidisc
Faixas
10 faixas
Duração
28:16

Faixas do álbum (10)

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Side A

Side B

Contexto histórico

No final da década de 1960, o rock mundial passava por uma mutação tectônica: as harmonias beat e o pop ingênuo davam lugar ao peso eletrizante de Woodstock, ao acid rock hendrixiano e à emergência do hard rock britânico (Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple). No Rio de Janeiro, os integrantes do conjunto Os Canibais — veteranos de bailes da Jovem Guarda que haviam estourado nacionalmente em 1966 com "Gina" e gravado em 1967 um aclamado LP de pré-psicodelia pela Mocambo — sentiram a urgência de reinventar sua arte. Ao entrarem nos estúdios da gravadora Musidisc em 1969 munidos de instrumentos e equipamentos de ponta importados (guitarra Fender 1961 com fuzz e wah-wah, órgão Hammond B3 com caixa Leslie rotativa, piano acústico, baixo Höfner e bateria Premier), os músicos liderados por Aramis de Barros conceberam um repertório tão agressivo, ácido e moderno que decidiram enterrar o nome de origem e assinar o projeto sob o pseudônimo Bango. Devido à crise financeira da Musidisc, a prensagem do disco sofreu atrasos editoriais, chegando às lojas entre 1970 e 1971 (catálogo Hi Fi 2236; datado no acervo do IMMuB como 1971).

Destaques musicais

  • Inferno no Mundo — Abertura monumental movida a riffs furiosos de guitarra fuzz, Hammond B3 saturado e vocalização visceral de proto-heavy.
  • Motor Maravilha — Uma das faixas mais aclamadas do LP, exibindo contagiante atmosfera psicodélica influenciada por Mutantes.
  • Rolling Like a Boat — Rock and roll dançante com órgão Leslie rasgado e dinamismo rítmico afiado.
  • Rock Dream — Hard rock direto e pesado com solos inspirados de Fernandinho e condução marcante do baixo Höfner de Elydio.
  • Geninha — Síntese cativante de melodia pop psicodélica e arranjos instrumentais sofisticados.
  • Ode to Billy — Encerramento denso e experimental que reafirma a ambição progressiva e a liberdade conceitual do grupo.

Evolução sonora

A sonoridade de "Bango" é uma das mais contundentes declarações de hard psych do continente sul-americano. A abertura com "Inferno no Mundo" define o tom da obra com uma parede monolítica de guitarras saturadas de fuzz, baixo pulsante e o rugido cósmico do órgão Hammond B3 de Roosevelt Tadeu, aproximando-se com audácia do proto-heavy setentista. Contudo, a genialidade do disco reside na variedade estilística: faixas como "Motor Maravilha" e "Marta, Zéca, o Padre, o Prefeito, o Doutor e Eu" destilam uma ironia psicodélica e um dinamismo timbrístico altamente devedores d'Os Mutantes; "Rolling Like a Boat" injeta suingue boogie com teclados fulgurantes; "Rock Dream" desfecha um hard rock ríspido com solos afiados de Fernandinho; e canções como "Mas Senti", "Geninha" e a comovente "Ode to Billy" resgatam a sensibilidade melódica brasileira sem perder a densidade instrumental.

Por que este álbum importa

Na cronologia mestra da música psicodélica e do rock pesado brasileiro, o LP "Bango" funciona como a ponte de transição definitiva entre o garage beat dos anos 60 e o hard/heavy dos anos 70: Os Canibais (1967) → The Galaxies (1968) → Os Mutantes (1968) → O Bando (1969) → Os Brazões (1969) → Bango (1970) → Spectrum / Geração Bendita (1971) → Módulo 1000 (1971/72) → A Bolha (1973) → O Peso (1975). Por ter tido circulação minúscula e quase clandestina na época de seu lançamento original pela Musidisc, o vinil converteu-se em um item mitológico de colecionadores mundiais de psych rock e proto-metal. Redescoberto internacionalmente e reeditado em prensagem audiófila de vinil pela conceituada gravadora portuguesa Groovie Records, "Bango" é universalmente consagrado como uma das maiores pérolas perdidas da era de ouro do rock brasileiro.