Obscure RockMedia Center · 60s & 70s
Capa do álbum Os Brazões do grupo Os Brazões, lançado em 1969
Vinyl LP, AlbumÁlbum Único

Os BrazõesOs Brazões · 1969

Único álbum de estúdio do quarteto carioca Os Brazões. Lançado em 1969 pela RGE, é um clássico supremo da psicodelia brasileira que combina a pulsante rítmica do samba-rock, o peso do fuzz e do wah-wah e interpretações magistrais de Gilberto Gil, Jards Macalé, Tom Zé e Jorge Ben.

Ano
1969
Gravadora
RGE Discos
Faixas
12 faixas
Duração
35:39

Faixas do álbum (12)

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Side A

Side B

Contexto histórico

No efervescente ano de 1969, enquanto o Tropicalismo desestabilizava as fronteiras entre a tradição cancioneira e a eletricidade global, o quarteto carioca Os Brazões despontou como uma das forças instrumentais mais impactantes da música brasileira. Formado por Miguel de Deus (vocal e guitarra), Roberto "Bob" (baixo), Eduardo "Edu" Rocha (bateria) e Taco (percussão), o grupo alcançou projeção fulminante ao atuar como banda de apoio de Gal Costa durante os lendários e transgressivos espetáculos de sua fase tropicalista no eixo Rio-São Paulo. Essa intensa vivência de vanguarda culminou na gravação de seu primeiro e único LP de estúdio pela RGE Discos (catálogo XRLP 5333), lançado no final de 1969. O disco funcionou como um autêntico manifesto da antropofagia musical: em vez de se limitar a emular a psicodelia anglo-americana, Os Brazões fundiram a distorção pesada e os efeitos de wah-wah aos balanços do samba, do soul e do R&B afro-brasileiro, reunindo um repertório magistral assinado pela nata de compositores da contracultura da época (Gilberto Gil, Jards Macalé, Tom Zé, Jorge Ben Jor, Toquinho e Rogério Duprat).

Destaques musicais

  • Pega a Voga, Cabeludo — Abertura incendiária de Gilberto Gil e Juan Arcon unindo cadência de samba, wah-wah rascante e vocais contagiantes.
  • Módulo Lunar — Obra-prima de Jards Macalé e Capinan com clima cósmico, guitarra ácida e arranjo hipnótico.
  • Feitiço — Composição desconcertante de Tom Zé transfigurada em um pesado e vigoroso groove de rock psicodélico.
  • Gotham City — Releitura visceral do manifesto de Jards Macalé apresentado nos festivais da canção, com explosões de guitarra distorcida.
  • Momento B/8 — Incursão instrumental experimental assinada pelo maestro vanguardista Rogério Duprat (Brazilian Octopus).
  • Carolina, Carol Bela / Que Maravilha — Duas gemas de Jorge Ben Jor e Toquinho transformadas em apoteoses psicodélicas de samba-soul.

Evolução sonora

A sonoridade de "Os Brazões" representa um dos momentos mais originais e viscerais do rock latino-americano. A guitarra de Miguel de Deus assume o papel de protagonista revolucionária, disparando solos saturados de fuzz, modulações de wah-wah e timbres ácidos que dialogam de igual para igual com o acid rock internacional de Jimi Hendrix e Cream. Contudo, a base rítmica conduzida pela percussão de Taco, a bateria precisa de Edu e o baixo musculoso de Bob ancora as composições firmemente no suingue brasileiro. A faixa de abertura "Pega a Voga, Cabeludo" (de Gilberto Gil) sintetiza de pronto essa assinatura estética. Obras-primas da experimentação poética como "Módulo Lunar" e a apocalíptica "Gotham City" (ambas de Jards Macalé e Capinan) ganham arranjos densos e elétricos; "Feitiço" de Tom Zé converte-se em um groove psicodélico hipnótico; "Momento B/8" traduz a vanguarda orquestral do maestro Rogério Duprat; e os clássicos "Carolina, Carol Bela" e "Que Maravilha" (Jorge Ben / Toquinho) são reinventados como hinos abrasivos de samba-soul psicodélico.

Por que este álbum importa

Na historiografia essencial da música psicodélica e do rock brasileiro — ao lado de obras coetâneas capitais como The Galaxies (1968), Os Mutantes (1968), O Bando (1969) e Liverpool (1969) —, o álbum de Os Brazões é a pedra de toque da confluência entre psicodelia, soul, samba-rock e Tropicália. O disco comprova também a circulação de repertório inter-regional daquele ano, gravando "Planador" e "Tão Longe de Mim" dos compositores do conjunto gaúcho Liverpool. Além de sua relevância intrínseca, o álbum conecta-se genealogicamente ao nascimento da soul music brasileira: o líder Miguel de Deus gravaria em 1977 o seminal "Black Soul Brothers", tornando-se figura-chave do Movimento Black Rio. Disputadíssimo em sua prensagem original em vinil pela RGE e reeditado em escala global por selos prestigiados como Polysom e o britânico Mr Bongo, "Os Brazões" consolidou-se como um patrimônio imortal da criatividade sonora brasileira dos anos 1960.