Obscure RockMedia Center · 60s & 70s
Capa do álbum Os Canibais do grupo Os Canibais, lançado em 1967
Vinyl LP, Album

Os CanibaisOs Canibais · 1967

Único álbum gravado pelo grupo carioca Os Canibais sob esse nome. Lançado em 1967 pela Mocambo, é um documento crucial da pré-psicodelia brasileira, articulando a energia dos bailes da Jovem Guarda com refinadas versões de garage beat e pop psicodélico de The Turtles e The Kinks.

Ano
1967
Gravadora
Mocambo / Rozenblit
Faixas
11 faixas
Duração
28:50

Faixas do álbum (11)

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Side A

Side B

Contexto histórico

Em meados dos anos 1960, o rock jovem brasileiro consolidava seu primeiro grande circuito profissional através dos programas de auditório e da efervescência dos bailes da Jovem Guarda. No Rio de Janeiro, o grupo Os Canibais destacou-se imediatamente pela excelência instrumental e pela presença de palco contagiante, conquistando enorme repercussão popular já em 1966 com o clássico compacto "Gina" / "Sou Canibal", que ultrapassou a marca de 100 mil cópias vendidas. Com o prestígio em alta e após a histórica apresentação ao vivo ao lado da prestigiada orquestra de Severino Araújo na TV Rio, o quinteto entrou em estúdio para gravar seu primeiro LP de carreira pela Mocambo/Rozenblit (catálogo LP 40353), lançado em 1967. O registro refletiu com precisão o momento de transformação vivido pela banda: a fidelidade às raízes do beat britânico e do pop jovem mesclava-se a uma crescente sofisticação melódica e arranjos mais dinâmicos, que abriam as portas para a incipiente psicodelia que explodiria no país no ano seguinte.

Destaques musicais

  • O Prego (Love Me, Kiss Me) — Faixa de abertura enérgica com vocalização rasgada e ritmo contagiante de beat rock.
  • Felizes Juntinhos (Happy Together) — Excelente adaptação em português do clássico psicodélico dos Turtles, destacando os arranjos vocais sofisticados.
  • Lindo Sonho — Balada autoral lírica composta por Sérgio Ferraz e Aramis de Barros, mostrando o requinte melódico do quinteto.
  • Garota Teimosa (Time Won't Let Me) — Versão pulsante do hit dos The Outsiders, com destaque para a guitarra solo e órgão.
  • Descubram Onde Meu Bem Está — Releitura contagiante de Ray Davies (The Kinks), conectando o garage rock britânico à cena carioca.
  • Nosso Romance — Composição de Aramis de Barros que encerra o LP com harmonias vocais refinadas e cadência rítmica marcante.

Evolução sonora

A identidade sonora de "Os Canibais" sustenta-se na versatilidade dos arranjos vocais e no diálogo afiado entre a guitarra solo de Sérgio Ferraz e o órgão e piano de Horácio, conduzidos pela base firme de Elydio no baixo e Aramis de Barros na guitarra rítmica. A banda especializou-se em criar versões brasileiras extremamente apuradas para gemas do pop psicodélico e do garage rock norte-americano e britânico, com letras adaptadas com inteligência por Aramis. O ápice dessa abordagem é "Felizes Juntinhos", inspirada releitura de "Happy Together" (The Turtles), que se consolidou como uma das mais emblemáticas amostras da pré-psicodelia nacional. Faixas como "O Prego" (versão de "Love Me, Kiss Me") e "Garota Teimosa" ("Time Won't Let Me", dos Outsiders) exibem a energia garageira contagiante do grupo, enquanto releituras como "Descubram Onde Meu Bem Está" (dos Kinks de Ray Davies) e canções autorais delicadas como "Lindo Sonho" e "Nosso Romance" comprovam o requinte técnico e a maturidade musical do quinteto.

Por que este álbum importa

Na linha do tempo do rock brasileiro dos anos 1960 — situada na transição direta: Os Canibais (1967) → Os Baobás (1968) → The Galaxies (1968) → Os Mutantes (1968) → O Bando (1969) → Bango (1970) —, o álbum do grupo carioca é um elo genealógico indispensável. Ele documenta o momento em que os conjuntos de baile da Jovem Guarda começaram a incorporar a linguagem do pop psicodélico internacional, antecipando a ruptura estética que desembocaria na psicodelia pesada. A importância histórica do grupo torna-se ainda mais fascinante ao se constatar que a mesma formação de Os Canibais, impactada pelas transformações estéticas do pós-Woodstock, adotou em 1969 o pseudônimo Bango, gravando em 1970 um dos mais cultuados e viscerais álbuns da psicodelia pesada nacional. Prensado originalmente em vinil pela Mocambo e celebrado internacionalmente em reedições comemorativas pelo selo britânico Mr Bongo, o LP "Os Canibais" de 1967 permanece como um dos tesouros mais preciosos e autênticos da era de ouro do beat brasileiro.