
Vinyl LP, AlbumÁlbum Único
KarmaKarma · 1972
Único álbum do trio carioca Karma. Obra-prima do rock acústico e proto-progressivo brasileiro que harmoniza violões líricos, a lendária "tritarra" (guitarra de três braços) de Jorge Amiden e arranjos orquestrais sublimes do maestro Arthur Verocai.
- Ano
- 1972
- Gravadora
- RCA Victor
- Faixas
- 10 faixas
- Duração
- 31:13
Faixas do álbum (10)
Toque numa faixa para ouvir no player.
Side A
Side B
Contexto histórico
No início da década de 1970, o rock brasileiro desdobrava-se em múltiplos caminhos estéticos que iam além do peso urbano e ruidoso do hard rock. No Rio de Janeiro, o virtuoso guitarrista e compositor Jorge Amiden acabara de se desligar do seminal grupo O Terço em 1971. Ao lado de Luiz Mendes Junior e Alen Cazinho Terra, fundou o Karma em 1972, guiado pela proposta de construir uma sonoridade acústica orgânica, rica em texturas harmônicas e imbuída de espiritualidade cósmica e contato com a natureza.
Contratados pela RCA Victor, o trio entrou nos estúdios da gravadora e registrou um LP histórico sob o catálogo 103.0046. A produção do disco reuniu uma constelação de talentos da música brasileira: o renomado maestro Arthur Verocai concebeu e regeu suntuosos arranjos de cordas e metais; Ian Guest emprestou o brilho barroco do cravo; Oberdan Magalhães (futuro líder da Banda Black Rio) pontuou faixas com sua flauta transversal; Rildo Hora tocou gaita; e a percussão foi dividida entre Gustavo Schroeter e Bill. O álbum sintetizou com maestria o diálogo entre a canção brasileira de raíz, o folk psicodélico internacional e o rock progressivo nascente.
Destaques musicais
- Do Zero Adiante — Abertura pastoral e contemplativa erguida sobre violões cristalinos, vozes polifônicas e arranjos delicados de cordas.
- Blusa de Linho — Parceria de Jorge Amiden com Zé Rodrix, mesclando o espírito do rock rural brasileiro a uma atmosfera folk intimista.
- Você Pode Ir Além — Síntese da audácia do trio, combinando afinações ricas da tritarra com contornos psicodélicos e proto-progressivos.
- Tributo ao Sorriso — Parceria com Sérgio Hinds que preserva a linhagem composicional direta com O Terço, enriquecida pela bateria de Bill.
- Omissão — Uma das peças mais cultuadas do disco, com tensão psicodélica envolvente, orquestrações sutis e percussões marcantes.
- Venha Pisar na Grama — Ode ao rock rural e orgânico, exaltando a comunhão com a natureza e harmonias vocais solares.
- Transe Uma — Momento de pura experimentação acústica e lírica psicodélica conduzido pela inventividade melódica de Amiden.
Evolução sonora
A arquitetura sonora de "Karma" apoia-se firmemente na inventividade da "tritarra", instrumento de três braços idealizado por Jorge Amiden que reunia seis cordas convencionais, doze cordas e uma afinação aberta personalizada. Essa inovação tecnológica permitiu criar camadas sonoras sobrepostas e dinâmicas timbrísticas que dispensavam o uso de distorções pesadas para alcançar impacto expressivo.
O som do grupo entrelaça a tradição do rock rural brasileiro (comprovada na colaboração de Zé Rodrix em "Blusa de Linho") com a herança d'O Terço (evidente em "Tributo ao Sorriso", composta com Sérgio Hinds). As vocalizações a três vozes, a alternância de baixos elétricos e acústicos por Alen Terra, a flauta bucólica de Oberdan e as orquestrações precisas de Verocai elevam as dez composições a uma atmosfera pastoral, lírica e sutilmente progressiva, que vai da delicadeza de "Do Zero Adiante" e "Venha Pisar na Grama" até os vôos experimentais de "Você Pode Ir Além" e "Transe Uma".
Por que este álbum importa
Na linha evolutiva da música psicodélica e progressiva brasileira — ao lado de marcos como O Bando (1969), Módulo 1000 (1972), A Bolha (1973), Perfume Azul do Sol (1974) e Moto Perpétuo (1974) —, o álbum do Karma ocupa o ápice da vertente rural, acústica e orquestral: Psicodelia → Folk Rock → Rock Rural → Proto-Progressivo. É também uma peça genealógica indispensável que conecta as ramificações de O Terço e a vanguarda orquestral de Arthur Verocai.
Apesar da meteórica existência da banda e de sua participação no Festival Internacional da Canção de 1972 com o compacto "Depois do Porão", o Karma não gravou outros álbuns de estúdio. O LP original de 1972 tornou-se uma das raridades mais disputadas por audiófilos e colecionadores em âmbito mundial, gerando cultuadas reedições em vinil pela Polysom e sendo reverenciado como um dos momentos mais puros e poéticos da era de ouro do rock nacional.