
7" Double Compact, EPÁlbum Único
O Despertar dos MágicosLoyce & Os Gnomos · 1969
Único registro fonográfico deixado pelo lendário grupo de Limeira (SP). Lançado em 1969 pelo selo Do Ré Mi em formato de compacto duplo de 7 polegadas com capa de 10 polegadas, é uma das peças mais furiosas, raras e cultuadas do garage rock psicodélico e proto-heavy brasileiro.
- Ano
- 1969
- Gravadora
- Do Ré Mi
- Faixas
- 4 faixas
- Duração
- 11:22
Faixas do álbum (4)
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Side A
Side B
Contexto histórico
No interior paulista do final da década de 1960, a cidade de Limeira abrigou uma das manifestações mais viscerais, ruidosas e clandestinas do rock brasileiro: o quinteto Loyce & Os Gnomos. Formado por Loyce (vocais), Fael / Raphael (guitarra), Massaro (baixo e vocais), Nilo (bateria) e Padulla (órgão), o grupo operava nas margens mais extremas da psicodelia de garagem, distante da docilidade comercial dos ídolos televisivos da época.
Em 1969, registraram de forma quase artesanal seu único testemunho em estúdio: o compacto duplo "O Despertar dos Mágicos", lançado pelo modesto selo paulista Do Ré Mi. O lançamento trazia uma singularidade física incomum no mercado fonográfico: um disco de vinil compacto de 7 polegadas acondicionado em uma ampla capa de 10 polegadas. O conceito e o título da obra homenageavam diretamente o livro seminal "Le Matin des Magiciens" (de Louis Pauwels e Jacques Bergier), manifesto da contracultura sobre esoterismo, alquimia, sociedades secretas e fenômenos inexplicados que fascinava a juventude psicodélica da época.
Destaques musicais
- Era Uma Nota de 50 Cruzeiros — Abertura devastadora conduzida por uma guitarra com saturação extrema de fuzz e microfonia, antecipando o espírito do proto-punk.
- José João ou João José — Balada de psicodelia folk com cadência melódica hipnótica e poesia alegórica surrealista.
- Que É Isso? — Ápice pesado do compacto duplo, com riffs monolíticos de heavy psych que figuram entre os momentos mais ríspidos do rock nacional de 1969.
- A Jardelina Querida ou Coletivo — Encerramento envolvente temperado pelo órgão de Padulla e pela rítmica garageira singular do quinteto.
Evolução sonora
A sonoridade de "O Despertar dos Mágicos" é caracterizada por uma ferocidade instrumental atípica para o cenário brasileiro de 1969. Em vez das harmonias polidas da Jovem Guarda ou do refinamento orquestral da Tropicália, o quinteto despeja uma torrente crua de guitarras saturadas por pedais de fuzz artesanais, microfonias estridentes e uma seção rítmica primitiva e pulsante.
A faixa de abertura "Era Uma Nota de 50 Cruzeiros" é um manifesto furioso de garage punk psicodélico, com vocais rasgados e paredes de distorção ríspida. Na sequência, "José João ou João José" revela uma faceta contrastante de balada folk-psicodélica enigmática. No Lado B, a avassaladora "Que É Isso?" eleva o peso ao extremo através de riffs cortantes que antecipam com precisão o heavy psych e o proto-metal setentista, enquanto "A Jardelina Querida ou Coletivo" encerra a obra com atmosferas psicodélicas conduzidas pelo órgão de Padulla e pela cadência sincopada da bateria de Nilo.
Por que este álbum importa
Na arqueologia da música pesada brasileira, "O Despertar dos Mágicos" é considerado um dos maiores santos graais e elos germinais da transição entre o garage rock e o proto-metal nacional. Ele preenche uma lacuna cronológica vital: Os Canibais (1967) → The Galaxies (1968) → Os Mutantes (1968) → Loyce & Os Gnomos (1969) → Liverpool (1969) → Spectrum / Geração Bendita (1971) → Módulo 1000 (1972).
Após o lançamento com tiragem minúscula, a banda dissolveu-se e seus músicos submergiram no anonimato, convertendo o disco em uma lenda subterrânea. A redescoberta internacional deu-se a partir da inclusão de faixas na cultuada coletânea "Brazilian Guitar Fuzz Bananas: Tropicalista Psychedelic Masterpieces 1967–1976" e do destaque no livro "Lindo Sonho Delirante" de Bento Araújo, culminando em uma cobiçada reedição numerada em vinil pela Valeverde Records que resgatou definitivamente o legado incendiário do grupo.